A Empresa

Publicações do Setor


Rss
-

05/10/2012
BEZERRO SOB MEDIDA EM ESCALA INDUSTRIAL
Revista Globo Rural

Técnica da transferência de embriões em tempo fixo concede ao pecuarista o poder de programar a reprodução do rebanho com alta qualidade genética.

Quando o assunto é tecnologia genética para aprimorar o padrão do gado, o Brasil não fica atrás de nenhum outro país. Aqui se trabalha com inseminação artificial – tudo começou com ela –, fertilização in vitro (FIV), marcadores moleculares e clonagem. Alguns estudiosos chegam a sustentar que a ciência da reprodução bovina já está à frente da do homem. Nos últimos anos, ganhou destaque a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), vedete nas fazendas, e agora mais um passo decisivo é dado com a utilização mais intensa da transferência de embriões em tempo fixo (TETF), que possibilita a multiplicação acelerada do rebanho usando-se embriões sexados de ótimos reprodutores e de matrizes igualmente consagradas, que são implantados em “mães de aluguel.” Um diferencial da técnica é que as crias nascem com 100% dos genes de alta qualidade do pai e da mãe, e em larga escala.

Globo Rural conversou com fazendeiros e executivos de três tipos de negócios distintos que apostaram na TETF e estão obtendo êxito. O primeiro, em Presidente Epitácio (SP), faz a multiplicação de matrizes nelore de gabarito para a produção de tourinhos. Em Tapiratiba (SP), a fazenda do “rei do leite” consegue uma média de 38 bezerras por doadora ao ano, enquanto a milhares de quilômetros dessas propriedades, em Xinguara, na Floresta Amazônica, a tecnologia incrementa a produção de machos meios-sangues destinados ao abate.

“Não fosse a TETF, jamais conseguiríamos constituir, a partir do zero e num curto espaço de tempo, um novo rebanho de vacas nelore de alto potencial genético”, diz Ricardo Viacava, filho do dono da Fazenda Santa Gina, Carlos Viacava. Ele diz que vendia, até dois anos atrás, 600 tourinhos a cada 12 meses e o objetivo é chegar a 1.000 no ano que vem com o auxílio da tecnologia.

O trabalho de seleção para a TETF envolveu 2.500 matrizes e 114 delas foram apartadas como as melhores doadoras. “Ficamos satisfeitos. Em apenas dois anos, o projeto já resultou na produção de 2.000 prenhezes e nasceram 1.600 bezerras.”

Na Santa Gina são usadas somente doadoras avaliadas em conceituados programas de melhoramento genético – com destaque para habilidade materna, fertilidade e ganho de peso à desmama. Viacava relata que os oócitos são fertilizados em laboratório usando-se sêmen sexado de 24 touros. Depois, os embriões são transferidos para receptoras comerciais, as chamadas “mães de aluguel”, escolhidas a dedo e de acentuada aptidão materna, cuja função é gerar e amamentar os bezerros. “Já na primeira safra, em 2010, houve 1.860 transferências e 850 bezerros nasceram, o que propiciou uma taxa de prenhez de 43%, ou seja, muito boa”, observa Viacava, cuja fazenda fica em Presidente Epitácio.

O pecuarista conta que, graças à qualidade, muitas das novilhas precoces que nasceram já foram aproveitadas como doadoras de embrião. Outro trunfo da técnica, aponta o fazendeiro, é que não é preciso observar o cio. Segundo ele, há uma deficiência humana quando se trata de detectar visualmente o cio no período de acasalamento, o que acontece com outras técnicas. “Na TETF, há uma sincronia perfeita entre a doadora e o preparo da receptora para receber o embrião. É um trabalho minucioso e detalhado que exige a supervisão de um veterinário gabaritado.”

O pecuarista informa que a pressão na fertilidade aliada ao manejo faz com que na idade de nove meses algumas novilhas já tenham cio. Na média nacional, dificilmente a fêmea cicla antes dos dois anos.

Segundo o veterinário Pietro Sampaio Baruselli, professor titular do Departamento de Reprodução Animal da Universidade de São Paulo (USP), a tendência é a IETF se espalhar cada vez mais pelas propriedades por conta de seus benefícios exclusivos. No caso da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), ferramenta que ele considera já consolidada, é aproveitada somente a genética do touro de alta qualidade em receptoras comuns, ao passo que a TETF agrega também os 50% da matriz de escol, possibilitando que nasçam crias de alto padrão na primeira fornada de bezerros, como aconteceu na Santa Gina.

Baruselli afirma que a pecuária hoje, seja de corte ou leite, exige uma eficiência produtiva elevada. Ele explica que é primordial trabalhar com embriões férteis. “No Brasil, temos excelentes programas de melhoramento genético, como o da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores, coordenado pelo professor Raysildo Lobo, da USP, que avaliam touros e matrizes e garantem sua qualidade.”

Outra vantagem da TETF, ressalta Baruselli, é que traz resultados reprodutivos palpáveis. Segundo ele, uma só dose de sêmen pode fertilizar 80 oócitos, o equivalente à aspiração em quatro fêmeas à média de 20 oócitos por vaca. Os 80 oócitos resultam na produção de cerca de 30 embriões. Se for considerada uma taxa de concepção de até 50%, os 30 embriões fertilizados transferidos para as receptoras corresponderiam a 15 prenhezes.

“É uma taxa de concepção muito boa, superior a de outras ferramentas”, assegura o professor. Ele diz que os experimentos com a TETF no país tiveram início nas fazendas experimentais da USP, como a de Pirassununga, e depois chegaram às propriedades privadas. “A parceria deu certo.” Baruselli observa que a TETF não é uma ferramenta nova, porém, agora, por conta do crescimento sem limites da pecuária, ela vai se espalhando.

Se quiser crescer mais no país, a tecnologia depende do barateamento dos embriões, adianta o professor, visto que a cotação das matrizes é alta. “Para a produção em larga escala, temos de desenvolver projetos que garantam resultados econômicos efetivos.” Uma parte do caminho, contudo, já está pavimentada. “O Brasil é o maior produtor mundial de embriões, com 400 mil ao ano, enquanto o mundo inteiro produz 900 mil”, informa Baruselli.

EXPERIÊNCIA AMAZÔNICA

José Henrique Fortes Pontes, diretor da In Vitro Brasil, de Mogi Mirim (SP), concorda com Baruselli e acrescenta que, para o uso na pecuária comercial, o custo de embriões fertilizados está baixando. “A In Vitro vende às fazendas de corte embriões produzidos de aspiração de oócitos de ovários de fêmeas nelore comuns e abatidas em frigoríficos.

Nós transportamos os ovários para o laboratório e eles são manipulados de forma manual, prescindindo da ultrassonografia para a aspiração folicular, como acontece com as doadoras vivas, o que encarece um pouco o processo.” Pontes informa que esse projeto faz o preço de cada prenhez cair até 60% em relação ao emprego de fêmea de genética superior, que pode chegar a R$ 500, R$ 600.

Um trabalho pioneiro e com esse viés vem sendo feito no sul do Pará, em plena Amazônia, na Fazenda Primavera, do Grupo Quagliato. Lá, a In Vitro coordena a utilização da TETF para a produção de machos meios-sangues angus com nelore destinados ao abate. Segundo Rodrigo Untura, sócio da In Vitro, um profissional da empresa acompanha o abate das vacas nos frigoríficos a fim de atestar a qualidade do material genético. Ele informa que, na estação de monta em 2011, foram sincronizadas 934 receptoras e delas 822 receberam os embriões sexados. Nasceram 370 animais, o que propiciou uma taxa de prenhez de 45%. Após o abate, a Primavera, que fica na cidade de Xinguara (PA), contabilizará um lucro líquido de R$ 564 mil para um total investido de R$ 66 mil com a tecnologia. Rodrigo diz que o mercado paga perto de 10% a mais pelo boi gordo na comparação com a vaca gorda e informa também que o macho abatido com idade semelhante à da fêmea pesa até 8% mais. Vale a pena, segundo Rodrigo, engordar machos, pois a receita final cobre facilmente o investimento com a TETF.

Ele ressalta que ter a opção de escolher o sexo do animal é uma das principais vantagens para o projeto amazônico da Primavera. “Além, é claro, da produção em larga escala.” Os resultados financeiros com a TETF estão indo tão bem que a intenção é adquirir 5.000 embriões para a próxima temporada de monta, adianta Rodrigo. “Imagine se tivéssemos uma quantidade grande de embriões e as receptoras não estivessem sincronizadas para recebê-los?” A indagação é de Sergio Ribeiro Filho, neto de Olavo Barbosa, o maior produtor de leite do Brasil, hoje com 55.000 litros ao dia, devido à entressafra. “Usando outras técnicas, teríamos de fazer a detecção do cio a olho nu, o que é ineficiente, visto que as receptoras respondem de maneira diferente aos tratamentos que estimulam o cio.” E é preciso um grande número de vacas receptoras no caso da TETF.

A Bela Vista, de Olavo, fica em Tapiratiba (SP). Ela trabalha com 180 doadoras cujo teste genômico (estudo do DNA) para avaliar a capacidade de transmissão de suas características para os filhos foi feito nos Estados Unidos. “Somos os primeiros do leite a fazer esse estudo lá”, ressalta Ribeiro. Segundo ele, a Bela Vista usa como receptoras fêmeas meios-sangues nelore (zebuíno) com simental (europeu). “As F1 resultantes desse cruzamento possuem boa estrutura corporal e estão aptas a parir uma cria de maior porte”, diz. Ribeiro informa que, em média, cada doadora permite duas aspirações ao mês e a extração de 32 oócitos. No ano, portanto, são retirados 384 oócitos e, após a fertilização, eles chegam a gerar 84 embriões. “Com um aproveitamento de 45%, a produção chega, em média, a 38 bezerras por ano por doadora.”

Ribeiro adianta que a TETF chegou à Bela Vista há três anos e se encaixou com perfeição ao projeto de incrementar ainda mais a produção de leite. “Estamos construindo dois free stall para abrigar novas vacas. A TETF está sendo fundamental no processo de produzir fêmeas em quantidade e de excelentes características leiteiras.”

Vários dos entrevistados disseram que a chegada dessas tecnologias de ponta às fazendas brasileiras, seja nas de corte ou nas de leite, foram fundamentais para transformar o Brasil no maior exportador mundial de carne bovina e para fazê-lo prescindir da importação – ela existe, mas é pouca – para suprir o mercado interno de lácteos.

Como no caso da pioneira inseminação artificial, porém, é necessário que as outras ferramentas tornem-se acessíveis principalmente aos pequenos pecuaristas, pois a TETF, por exemplo, exige uma equipe de especialistas, liderada por um médico-veterinário, para acompanhar o detalhado projeto. Mas não resta dúvida. “A vez da TETF chegou”, enfatiza o professor Baruselli, da USP.

Jornalista Responsável: Sebastião Nascimento
Fotografias: Ernesto de Souza


TopoImprimir
-